{"id":16,"date":"2023-10-18T14:14:37","date_gmt":"2023-10-18T17:14:37","guid":{"rendered":"https:\/\/100anossemrui.casaruibarbosa.gov.br\/?page_id=16"},"modified":"2023-10-31T10:27:49","modified_gmt":"2023-10-31T13:27:49","slug":"josaphat-marinho","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/100anossemrui.casaruibarbosa.gov.br\/?page_id=16","title":{"rendered":"Josaphat Marinho"},"content":{"rendered":"<h1>100 anos depois&#8230;<\/h1>\n<h3>Josaphat Marinho<br \/>\n&#8220;Atualidade do pensamento jur\u00eddico de Rui Barbosa&#8221;<\/h3>\n<blockquote><p>Por ocasi\u00e3o dos 150 anos de nascimento de Rui Barbosa, o Conselho Federal da OAB houve por bem comemor\u00e1-los convidando o advogado e professor Josaphat Marinho a proferir uma palestra, cujo t\u00edtulo foi &#8220;Atualidade do pensamento jur\u00eddico de Rui Barbosa&#8221;.<\/p>\n<p>Desta palestra, publicada no livro\u00a0<em>Rui Barbosa: valores da personalidade e da obra<\/em>. Bras\u00edlia: OAB, Conselho Federal, 2001, p. 11-24, transcrevem-se aqui algumas passagens, especialmente esclarecedoras, sobre a perman\u00eancia de Rui Barbosa.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Relevo do tema<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Qual ser\u00e1 a atualidade [do pensamento de Rui Barbosa] no dom\u00ednio do Direito, transcorridos 76 anos de sua morte e diante das transforma\u00e7\u00f5es da sociedade e da cultura neste s\u00e9culo?&#8221; (p. 12)<\/p>\n<p><strong>Dimens\u00e3o da obra de Rui<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Dotado [de] vis\u00e3o larga e objetiva, produziu ideias e conceitos e propiciou a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es que sobrevivem \u00e0s mudan\u00e7as sociais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas.&#8221; (p. 12)<\/p>\n<p>&#8220;O talento inquieto e o estudo incessante impeliam-no, com frequ\u00eancia, a divisar o futuro, rompendo as peias do conservadorismo, desprezando o direito estabelecido em busca do direito em forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante ter sido o art\u00edfice principal da Constitui\u00e7\u00e3o de 1891, sustentou, at\u00e9 com sacrif\u00edcio de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, a necessidade de reformas de seu texto, \u00e0 base de falhas encontradas ou para impedir os erros praticados \u00e0 sua sombra. [&#8230;] Visava \u00e0 atualidade do conhecimento e da norma, e n\u00e3o \u00e0 sua petrifica\u00e7\u00e3o.&#8221; (p. 12-13)<\/p>\n<p><strong>Liberdade de ensino<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Relator da reforma do ensino, na C\u00e2mara do Imp\u00e9rio [&#8230;] proclamou o princ\u00edpio de liberdade no magist\u00e9rio. No parecer a respeito do ensino secund\u00e1rio e superior, observou que &#8216;o direito de enunciar e discutir livremente todas as opini\u00f5es \u00e9 inerente \u00e0 ci\u00eancia. O Estado n\u00e3o tem compet\u00eancia para definir ou patrocinar dogmas; e se a tem, n\u00e3o abra estabelecimentos cient\u00edficos; porque a exist\u00eancia dessas institui\u00e7\u00f5es \u00e9 incompat\u00edvel com a de cren\u00e7as privilegiadas. Da condi\u00e7\u00e3o essencial \u00e0 ci\u00eancia \u00e9 o n\u00e3o obedecer a concep\u00e7\u00f5es a priori, duvidar do que n\u00e3o seja metodicamente averiguado, e s\u00f3 adotar a realidade verificada segundo os preceitos rigorosos da l\u00f3gica experimental&#8217;.&#8221; (p. 13)<\/p>\n<p>&#8220;Sem nunca ter sido professor, antes ou depois desse Parecer, Rui, j\u00e1 aos 33 anos de idade, reivindicava condi\u00e7\u00e3o elementar ao ensino decente, agora consagrada nas Cartas da democracia social.&#8221; (p. 13)<\/p>\n<p><strong>Abolicionismo e desenfeuda\u00e7\u00e3o da propriedade<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;J\u00e1 em 1888, [Rui] advertiu que o abolicionismo n\u00e3o era &#8216;o termo de uma aspira\u00e7\u00e3o satisfeita&#8217;, mas &#8216;apenas o ponto inicial de uma trajet\u00f3ria sideral&#8217;. Apontou ent\u00e3o como programa de reformas: &#8216;a liberdade religiosa, a democratiza\u00e7\u00e3o do voto, a desoligarquiza\u00e7\u00e3o do Senado, a desenfeuda\u00e7\u00e3o da propriedade e a federa\u00e7\u00e3o&#8217;. Recordando esse pensamento em 1942, Jo\u00e3o Mangabeira sublinhou que o programa de Rui, de &#8216;desenfeuda\u00e7\u00e3o da propriedade&#8217; seria &#8216;avan\u00e7ado&#8217; naquele ano. Podemos dizer que o \u00e9 ainda hoje, se atentarmos em nossa realidade quanto \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da terra, \u00e0s injusti\u00e7as nela praticadas e \u00e0 reforma agr\u00e1ria em solu\u00e7os.&#8221; (p. 14)<\/p>\n<p><strong>A Federa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Defensor da federa\u00e7\u00e3o antes mesmo de tornar-se republicano, [&#8230;] lutava por institu\u00ed-la na pureza de seu conceito. [&#8230;] Durante a feitura da Constitui\u00e7\u00e3o de 1891, reagiu aos ultrafederalistas, ponderando: &#8216;A federa\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e a Uni\u00e3o, e deve destinar-se a restabelec\u00ea-la. [&#8230;] Os que partem dos estados para a Uni\u00e3o, em vez de partir da Uni\u00e3o para os estados, transp\u00f5em os termos do problema. [&#8230;] Sob o regime federal, a Uni\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais que a subst\u00e2ncia organizada dos estados, a individualidade natural constitu\u00edda por eles, desenvolvendo-se pelo equil\u00edbrio de for\u00e7a de todos.'&#8221; (p. 14-15)<\/p>\n<p><strong>Construindo o regime de 1891<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;Sob o governo de Floriano Peixoto, seu amigo pessoal, reagiu aos atos arbitr\u00e1rios. Condenou-os politicamente e impetrou medidas judiciais para restaurar direitos ofendidos, sobretudo de advers\u00e1rios e desafetos. No<em>\u00a0habeas corpus<\/em>\u00a0de 1892, quando pela primeira vez se confrontou, no Supremo Tribunal Federal, a autoridade da Constitui\u00e7\u00e3o com os poderes do presidente da Rep\u00fablica, Rui buscava fixar princ\u00edpios basilares do regime em forma\u00e7\u00e3o. A superioridade da Constitui\u00e7\u00e3o sobre leis e atos; a delimita\u00e7\u00e3o dos poderes no estado de s\u00edtio e a suspens\u00e3o de seus efeitos com a cessa\u00e7\u00e3o dele; a valoriza\u00e7\u00e3o do <em>habeas corpus<\/em> como garantia de direitos individuais, e al\u00e9m da seguran\u00e7a da liberdade de locomo\u00e7\u00e3o, pela inexist\u00eancia de rem\u00e9dios espec\u00edficos; o reconhecimento da compet\u00eancia do Poder Judici\u00e1rio, notadamente do Supremo Tribunal, para interpretar o Estatuto Maior, essas teses, ora aceitas, ora rejeitadas, acabaram por ser vitoriosas e se incorporaram a cartas pol\u00edticas posteriores, at\u00e9 a atual.&#8221; (p. 16-17)<\/p>\n<p><strong>Conceito de igualdade<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 de estranhar [&#8230;] que em 1921, na &#8220;Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os&#8221;, dois anos antes de morrer, [Rui] transmitisse aos bacharelandos de S\u00e3o Paulo profunda li\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o da vida social e pol\u00edtica, para aplicar bem a lei. Embora a Constitui\u00e7\u00e3o de 1891 declarasse a igualdade de todos perante a lei (art. 72, 2o), Rui percebia a dist\u00e2ncia entre o valor formal e o valor real da norma. [&#8230;] ensinou que &#8216;a regra da igualdade n\u00e3o consiste sen\u00e3o em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada \u00e0 desigualdade natural, \u00e9 que se acha a verdadeira lei da igualdade.&#8217; Hoje esse entendimento \u00e9 preponderante [&#8230;].&#8221; (p. 19)<\/p>\n<p><strong>Retroatividade da lei<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se embara\u00e7ando em dogmas, apesar de fiel a princ\u00edpios, Rui procurava sempre imprimir \u00e0 lei exegese compat\u00edvel com seu fim efetivo, coincidente com a defesa leg\u00edtima da pessoa, ou com o interesse coletivo. Para tanto, afastava os obst\u00e1culos provenientes da leitura ligeira, ou interessada dos mandamentos criados. Por estipular a Constitui\u00e7\u00e3o de 1891 (art. 11, \u00a7 3o) que era vedado &#8216;prescrever leis retroativas&#8217;, n\u00e3o admitia que a\u00ed se estabelecera norma proibitiva absoluta, que n\u00e3o tolerasse temperamento. &#8216;Leis h\u00e1 &#8211; explicou, baseado em Saredo &#8211; fatalmente, constitucionalmente retroativas. Nesta classe est\u00e3o necessariamente as que &#8216;estabelecem mitiga\u00e7\u00e3o de penas, extens\u00e3o de direitos, ou reintegra\u00e7\u00e3o de capacidade&#8217;. Lembrando que &#8216;retroativas foram as leis que extinguiram a feudalidade, a servid\u00e3o, a d\u00edzima, o cativeiro&#8217;, advertiu que &#8216;seriam perfeitamente constitucionais perante o nosso direito&#8217;, &#8216;porque melhoravam a condi\u00e7\u00e3o geral das pessoas, extinguiam opress\u00f5es, reintegravam o homem na sua capacidade inalien\u00e1vel&#8217;.&#8221; (p. 19-20)<\/p>\n<p><strong>Direito privado<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;[&#8230;] certo \u00e9, por seus trabalhos mais conhecidos nesse dom\u00ednio, que as tend\u00eancias vitais foram as mesmas expostas no Direito P\u00fablico. N\u00e3o examinava ele texto positivo ou problema a que n\u00e3o infundisse no\u00e7\u00f5es essenciais da ci\u00eancia do direito, em linha evolutiva. Era uma resultante natural do estudo cont\u00ednuo e do poder criador.&#8221; (p. 22)<\/p>\n<p>Como exemplo, por\u00e9m, da capacidade de Rui expor e discutir mat\u00e9ria na \u00e1rea do Direito Civil, justificando posi\u00e7\u00e3o inovadora, qual o fazia na seara do Direito P\u00fablico, recorde-se a controv\u00e9rsia derredor da &#8216;posse de direitos pessoais&#8217;. Nas raz\u00f5es de advogado, tanto quanto nos artigos no <em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em>, o que escreveu em defesa dos lentes da Escola Polit\u00e9cnica, do Rio de Janeiro, revela o conhecimento seguro da doutrina e da jurisprud\u00eancia, inclusive no direito comparado, em legitima\u00e7\u00e3o da posse dos direitos pessoais.&#8221; (p. 22-23)<\/p>\n<p><strong>A obra de Rui e o direito moderno<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;[&#8230;] toda a obra intelectual de Rui Barbosa, elaborada entre combates, repousa no esp\u00edrito das leis e visa \u00e0 defesa de direitos individuais, pol\u00edticos e sociais. Sobrevive, \u00e9 atual, precisamente porque se insere no quadro educativo de prote\u00e7\u00e3o aos direitos humanos, sem exclus\u00e3o nem preconceito.&#8221; (p. 24)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>100 anos depois&#8230; Josaphat Marinho &#8220;Atualidade do pensamento jur\u00eddico de Rui Barbosa&#8221; Por ocasi\u00e3o dos 150 anos de nascimento de Rui Barbosa, o Conselho Federal da OAB houve por bem comemor\u00e1-los convidando o advogado e professor Josaphat Marinho a proferir uma palestra, cujo t\u00edtulo foi &#8220;Atualidade do pensamento jur\u00eddico de Rui Barbosa&#8221;. 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