{"id":18,"date":"2023-10-18T14:18:24","date_gmt":"2023-10-18T17:18:24","guid":{"rendered":"https:\/\/100anossemrui.casaruibarbosa.gov.br\/?page_id=18"},"modified":"2023-11-01T09:55:48","modified_gmt":"2023-11-01T12:55:48","slug":"drummond","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/100anossemrui.casaruibarbosa.gov.br\/?page_id=18","title":{"rendered":"Drummond"},"content":{"rendered":"<h1>100 anos depois&#8230;<\/h1>\n<h3>Carlos Drummond de Andrade, sobre os 50 anos da morte de Rui Barbosa<\/h3>\n<p>A cr\u00f4nica abaixo, de Carlos Drummond de Andrade, foi publicada no <em>Jornal do Brasil<\/em>, no dia 1\u00ba de mar\u00e7o de 1973, exatamente 50 anos ap\u00f3s o falecimento de Rui.<\/p>\n<p><strong>Rui, naquele tempo<\/strong><\/p>\n<p>Rui Barbosa, que volta glorioso aos jornais, vencidos os prazos do sil\u00eancio \u2014 bem que o conheci, sem nunca t\u00ea-lo visto. Era uma presen\u00e7a em Minas Gerais, no come\u00e7o do s\u00e9culo, sob o ardor da campanha civilista, e nos anos que se seguiram ao seu malogro.<\/p>\n<p>Tanto quanto podem valer as impress\u00f5es da inf\u00e2ncia, recolhidas em pequeno meio provinciano, recordo que n\u00e3o havia neutros naquele tempo. \u00c9ramos todos, meninos inclusive, civilistas, quer dizer, ru\u00edstas. Hermistas seriam apenas os funcion\u00e1rios estaduais e municipais, sujeitos a repres\u00e1lias do Governo se aderissem \u00e0 corrente da Oposi\u00e7\u00e3o. Quero crer que os havia sinceramente adeptos do Marechal Hermes e de Pinheiro Machado, pois afinal s\u00e3o t\u00e3o variadas as inclina\u00e7\u00f5es humanas, mas seriam poucos.<\/p>\n<p>A alma da cidade (se se entende por essa express\u00e3o o conjunto de moradores de maior ou menor hierarquia social, identificados pelo estilo de vida paroquial vigente na \u00e9poca, exclu\u00eddas as camadas mais pobres, sem acesso ao jogo pol\u00edtico), a alma da cidade latejava de entusiasmo diante da figura mirrada e feia de um homem que encarnava os princ\u00edpios democr\u00e1ticos, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 candidatura castrense, aceita, que rem\u00e9dio? pelas oligarquias regionais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se percebia ent\u00e3o \u2014 e n\u00e3o havia de ser no interior que brotasse o analista ou o futur\u00f3logo capaz de anunci\u00e1-lo \u2014 que o epis\u00f3dio era apenas a primeira de uma s\u00e9rie grave de crises chamadas a denunciar a fragilidade da estrutura republicana, com seus artificialismos de base e suas hipocrisias de c\u00fapula. Via-se, sentia-se a situa\u00e7\u00e3o como a luta entre o mocinho e o bandido, e obviamente tomava-se o partido do mocinho.<\/p>\n<p>E como falava bem o mocinho, cuja pistola era o verbo. Boca-de-ouro, seus discursos de campanha nos estados \u2014 oh, os de Ouro Preto e Belo Horizonte \u2014 ou de cr\u00edtica no Senado, espraiavam-se em pelo menos cinco horas, enchendo p\u00e1ginas do <em>Correio da Manh\u00e3<\/em>. N\u00e3o havia r\u00e1dio, tinha-se que ler aquilo tudo pelo dia afora, se \u00e9 que algum corajoso o lesse. Mas a sensa\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, de bravura e eletricidade moral era un\u00e2nime. Rui Barbosa representou o melhor, o mais puro e desinteressado pensamento do homem da rua, desencantado da engrenagem pol\u00edtica montada no pa\u00eds e esperan\u00e7oso (utopicamente) de erigir um Governo civil inspirado na justi\u00e7a, na liberdade, na representa\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, na virtude.<\/p>\n<p>Foi nossa paix\u00e3o, a dos grandes e a dos pequenos, contagiados pelo exemplo dos grandes, mesmo que n\u00e3o entend\u00eassemos bem o que se estava passando; foi o her\u00f3i, o par de Fran\u00e7a, o quixote, o sujeito que dizia verdades \u00e1speras e \u2014 coisa inconceb\u00edvel hoje em dia \u2014 em portugu\u00eas de lei, com fartura de sin\u00f4nimos raros e constru\u00e7\u00f5es preciosas. Era ainda um tempo de certo respeito \u00e0 l\u00edngua portuguesa, e de prest\u00edgio do bacharel em Direito. A eloqu\u00eancia torrencial levantava-se contra os opressores, e iluminava o ano enfrentando os gigantes do poder, em defesa dos fracos, dos esbulhados de direitos, dos presos sem mandato e sem explica\u00e7\u00e3o. O advogado valorizava o pol\u00edtico, j\u00e1 real\u00e7ado pelo orador, e tudo isso compunha uma imagem popular, t\u00e3o diversa das que hoje conquistam a simpatia das massas. Era austero, compenetrado, sua ironia n\u00e3o convidava ao riso e exclu\u00eda a familiaridade. Nem por sombra, seus fan\u00e1ticos pensariam em dar-lhe palmadinhas nas costas, como aos l\u00edderes americanos. Dava-se ao respeito, e n\u00e3o obstante foi amado, de amor c\u00edvico ardente, por milhares de brasileiros alfabetizados e crentes na quimera da regenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na derrota, ele cresceu ainda mais. De 1910 a 1914 o Brasil teve dois presidentes: um de fato e outro de consci\u00eancia, entre seus livros e pap\u00e9is da Rua S\u00e3o Clemente, e da\u00ed para a tribuna do Senado ou perante o Supremo Tribunal Federal, postulando, verberando, exigindo o cumprimento da lei, j\u00e1 menos como pol\u00edtico do que como defensor dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Esta a imagem de Rui guardada por uma crian\u00e7a mineira. Continua viva, como gravura que o tempo n\u00e3o patinou. Surgir\u00e1 outra assim, adaptada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do nosso tempo?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>100 anos depois&#8230; Carlos Drummond de Andrade, sobre os 50 anos da morte de Rui Barbosa A cr\u00f4nica abaixo, de Carlos Drummond de Andrade, foi publicada no Jornal do Brasil, no dia 1\u00ba de mar\u00e7o de 1973, exatamente 50 anos ap\u00f3s o falecimento de Rui. 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